O Coritiba de 85

O dia 31 de julho de 1985 ficou marcado na história do torcedor coxa-branca. Após passar por times como São Paulo, Cruzeiro, Flamengo, Santos, Corinthians e Atlético-MG, era a vez de encarar o Bangu que, assim como o Coritiba, surpreendeu o país ao chegar à decisão. Mas antes de falar dessa final histórica, vamos relembrar a campanha do time naquele campeonato.

O Coritiba estava desde 1979 sem conquistar títulos, por isso, buscava mudança naquele ano. O time tinha jogadores bons e algumas revelações da base, mas ao trabalhar em conjunto as coisas não davam certo (isso lembra alguma realidade atual?) .

Nas cinco primeiras partidas do Campeonato Brasileiro de 1985, a equipe teve suas vitórias contra o São Paulo e contra o Cruzeiro, mas também teve suas derrotas vergonhosas, como a goleada sofrida pelo Vasco de 3×0 e a virada de 2×1 contra o Bahia, além de um empate sem gols contra o Goiás.

Desapontada com o desempenho dos técnicos, a diretoria buscou reforço com a contratação de Ênio Andrade, técnico que hoje é ídolo da torcida e que revolucionou o time. Seu treinamento era ousado, costumava se aproveitar do físico bom dos jogadores, eles puxavam rolos compressores de 200kg para fortalecer as pernas, além das corridas de resistência. Esse treinamento mostrou resultado no final do campeonato, quando os jogadores do Verdão tinham muito mais fôlego comparado aos rivais de cambaleavam de cansaço.

Andrade aperfeiçoou o time para uma tática de contra-ataque, ele mostrou à equipe que a paciência era uma virtude e, por isso, era mais vantajoso esperar o adversário pressionar para ter um roubo de bola e utilizar a velocidade do ataque para marcar.

Apesar desse esforço, a classificação do Coritiba para a final foi sofrida, a campanha terminou com 12 vitórias, 7 empates e 10 derrotas. O último jogo foi em casa, contra o Santos, e teve até exorcismo no campo para tirar a maré de azar do time. Alguns torcedores acenderam velas, pólvoras e incensos, além de lavar as traves do gol com água do mar, champanhe e pinga. Tudo isso para o time não perder a classificação. E não é que deu certo? Coritiba venceu o Santos por 2×1 (dá até vontade de repetir o ritual pra tirar a maré de azar do verdão atualmente).

 

A Grande Final

A final do Campeonato Brasileiro de 1985 foi definida em partida única no Maracanã, dois times que foram desacreditados desde o início da competição estavam disputando a final, Bangu x Coritiba.

O Maracanã contou com 91 mil pessoas nas arquibancadas, a maioria torcedores de times cariocas que se uniram para apoiar o time de Moça Bonita.

Isso fez com que os jogadores do verdão tivessem sangue frio e abrisse o placar aos 26 minutos do primeiro tempo, com uma linda cobrança de falta do Índio, nosso camisa 9. Dez minutos depois, o Bangu empata com o gol de Lulinha.

Após isso não houve gols no primeiro tempo, porém foi um jogo equilibrado, Coritiba teve 4 finalizações e Bangu 5, a posse de bola foi quase 50% pra cada. Isso mostrou aos jogadores que o título não viria tão facilmente.

O segundo tempo começou sem energia, sem grandes chances para os dois times, a torcida do Bangu começou a gritar pelo nome do ídolo Pingo, porém o técnico Moisés demorou para dar ouvidos, mas acabou cedendo aos 27 minutos do segundo tempo.

Essa mudança trouxe mais energia ao time, que criou boas oportunidades deixando os torcedores alviverdes apreensivos. Até que aos 38’ aconteceu um lance que gera discussões até hoje: Lulinha passou a Marinho, que livrou-se do goleiro do coxa, Rafael e fez o gol chutando entre as pernas do zagueiro. O bandeirinha Osvaldo Campos correu para o meio do campo, mas Romualdo Arppi Filho anulou o gol. A decisão manteve o placar empatado até o final do jogo.

Na prorrogação, o jogo caiu, sobretudo porque o Coritiba queria visivelmente levar a decisão para os pênaltis e retardava o jogo como podia: o goleiro Rafael levou cartão amarelo por fazer cera. Além de tudo, o time estava cansado. O Bangu dominou completamente, Marinho fez três jogadas excelentes e só não marcou por falta de sorte. Com isso, a decisão foi para os pênaltis.

Os dois times acertaram as duas cobranças, mas quando o Bangu desperdiçou o sexto chute com Ado, coube a Gomes finalizar o marcado: 6×5. A madrugada de 01 de agosto recebeu a maior festa da história curitibana, se consagrando como o primeiro título nacional do estado do Paraná.

O título trouxe admiração até dos torcedores rivais, a prova disso foi a linda homenagem do maior poeta curitibano:

Hoje, 1º de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde. Os passarinhos só diziam: Lela, Lela, Rafael, Rafael. E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguetes e pó-de-arroz. Nada mais me restava a não ser filosofar: “Não se pode ganhar sempre”.

E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim, onde tremula o pavilhão rubro-negro, e fiz descer a bandeira dos meus sonhos. E foi com um misto de pesar e júbilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arqueadversário, hoje, aqui e agora, para sempre, campeão brasileiro de 1985.

Um demônio (ou um anjo?) vestido de preto e vermelho (um Exu?) me sussurrava brabo com Tóbi na grande área do Bangu: “Teu time é tua pátria, traidor. Vendeste a lama por um escanteio, vira-casaca. Então, foi para isso que te demos tantas alegrias?”. Nesse momento, recebi um passe do Índio e, vendo que eu estava em campo livre pela esquerda, o demônio rubro-negro preferiu a falta, mas, antes que me atingisse, toquei a bola na perna dele, e foi lateral a meu favor. Foi isso, tudo isso. E muito mais.

Foi ver uma equipe coesa, coerente, bem orquestrada, enfrentar os faixas-pretas do futebol brasileiro, e sair na frente. Foi ver um time de um Estado de poucas glórias esportivas explodir no templo máximo do futebol brasileiro. Foi muito bom saber que futebol não é só coisa de Cariocas, paulistas, mineiro e gaúchos. E, se o título foi nosso, pode bem ser de pernambucanos, baianos, catarinenses e capixabas, de goianos e mato-grossenses, brancos, negros e mulatos queridos do meu Brasil, que escrevem com os pés a arte maior do meu país.

O futebol é o termômetro, a radiografia do Estado do Brasil.

Seria por acaso que, nestes tempos de insuportável dívida externa, nossos grandes craques estejam lá fora, na Europa, com os números que selam nossa dependência aos bancos estrangeiros? Não, com mil pênaltis, não. No Brasil, se o futebol vai bem, é sinal de que as coisas estão indo bem. Se o futebol vai mal, algo vai mal na terra de Pelé, Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo e daquele reserva de ponta-esquerda do Náutico, do Ferroviário, dos Nenecas, Tatas, Paquitos, Muçuns e Evaristos, que fazem as alegrias dos nossos domingos.

Este título do Coritiba, de um time de tradição, mas interiorano, é um título da democracia, um título da Nova República, um título para todo mundo que só senta nas arquibancadas do Maracanã como crianças pobres em volta de uma grande fogueira esperando gritar gol, como quem espera que lhe joguem a alegria de um pedaço de pão.

Obrigado, Coritiba, por essa alegria. Você esteve à altura do teu destino.

Do atleticano Paulo Leminski, na edição de 9 de agosto de 1985 da Revista Placar.

 

 

 

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